É história demais pra contar, fica até difícil escrever porque não se sabe por onde começar. Como o relato será de três dias, já é de se esperar um texto grande, como tem sido os últimos aqui. O ônibus. A galerinha do fundo se achando, a da frente mal se enturmava e eu estava em posição intermediária, mais próxima do fundo. O funk proibido rolava e o truco começou. Eu, na posição de biriba, já pulei os bancos para jogar, mas não durou por muito tempo. Coisas de mulher... Precisei deitar e ficar quieta (o que é bem difícil pra mim) pra dor passar. Alguém notou como eu estava e isso me deixou tão feliz. Toda a atenção que ele tem quando você menos espera é muito legal. Foi o primeiro de muitos momentos bons com ele. Em volta só tinha pessoas que me faziam rir (o que não era tão difícil assim). A viagem foi longa, mas não cansativa. Chegando no local, as malas me carregavam e já pude ver algumas poucas pessoas na entrada (tinha gente jogando buraco e me deu vontade de sentar com aquele povo). Quanto mais eu andava, mais gente eu via. De longe, pude reconhecer pouquíssimas que conhecia por foto (isso é algo incrível porque não enxergo muito bem, muito menos sem meus óculos). Minha turma escolheu o lugar e nós, as meninas, contamos com a ajuda dos “homens” na montagem das barracas. Peguei minha blusa que mais servia de vestido, separei a roupa e me preparei para o frio. Banho. Era disso que eu precisava. Um bem tomado, quente e demorado me faria muito bem. Não deu nem cinco minutos debaixo do chuveiro e a luz acabou (acredite, é verdade) e foi só naquele apartamento! Explicando o termo “apartamento”: estávamos acampados mesmo, mas uma santa professora de alma boa deixou usar o banheiro dela para maior privacidade. O banheiro coletivo de todas as barraqueiras era imundo e muito aberto. Voltando ao banho de água fria (literalmente), isso não foi tão assustador assim não. O frio do lado de fora não era exatamente o que eu esperava, era bem menor. Todos prontos e cheirosos (com alguma exceções, claro), todas as unidades se reuniram para a apresentação. Equipe verde. Como as coisas acontecem rápido né? Devíamos cumprimentar com um aperto de mão, um abraço ou um beijo no rosto. Olho pro lado e me deparo com um beijo de novela das oito que passa às nove. UAU! Até o monitor viu e fez questão de comentar no microfone. Isso é que eu chamo de interação. Já estava cansando daquele bla bla bla e prefeir esperar pelo luau na minha barraca. Acompanhada pelo atencioso do ônibus. Papo sério o que tivemos e foi muito bom. Luau? Tava ruim, não superou minhas expectativas. O frio aumentava e o som que me chamava atenção era o de rodinhas de violão. Vamos pra barraca! Dez pessoas, o dobro da capacidade. Homens e mulheres misturados, mas sem nenhuma maldade. Maldade foi o que nos fizeram. Qual o motivo de nos tirar dali pra nos colocar no sereno, naquele frio ao som de músicas não apropriadas para um luau? Suspeitavam de alguma sacanagem ali dentro por haver pessoas heterossexuais de sexos opostos em um lugar apertadinho, calor humano. Esqueci do detalhe: no canto, a conversa atenciosa, séria e legal continuou. Eu só pensava como nunca pude conhecer melhor aquele cara. Ele era muito mais do que eu imaginava, tava sempre ali do meu lado e eu nem dava atenção. Atenção... Tudo que precisava! Voltando para a festinha, acabei conhecendo uma galera legal, reconhecendo outras pessoas e foi até divertido. Nossa cidade era a que mais se misturava, que mais queria conhecer gente nova e era essa a diferença. Não me incluo muito nesse grupo sociável, mas pelo meu jeito mesmo, porque vontade eu tinha. Toque de recolher. Quando tudo ficava interessante... A regra era simples e clara: quatro da manhã, todos (XX com XX e XY com XY) deveriam estar na barraca, conversando ou não, dormindo ou não. Começa o inferno. O sono me comia e eu já ficava nervosa. Eram piadinhas e comentários tão idiotas que todo mundo ria. Eu queria dormir, só isso! O segurança, pelo que parecia, estava (muito) mais nervoso que eu. “Não sou sua mãe; olha o nível descendo; vamos respeitar aí, gente; amanhã Itaúna vai ter amolação, se não deixarem os outros dormirem, vou tirar vocês daí” eram algumas das frases que ouvi. Ninguém queria saber de nada! Não era só a bebida que tinha alterado a alegria não, não podia ser. Todo mundo ria de tudo, achavam graça na fala do segurança e do monitor que foi chamado no local. Por um tempo, cochilei e quando comecei a dormir (ainda ao som de risadas e pedidos nem um pouco educados de silêncio) senti algo estranho nas minhas costas. Sei que foi sem querer, mas chutaram minhas costas. Percebi que dormir naquela noite seria impossível e resolvi então ficar acordada e tentar entrar na brincadeira. Como minha amiga disse, quando eu boto na cabeça uma coisa, não tiro por nada. E naquele momento, eu não acharia graça em absolutamente nada. Me lembro bem do momento em que meu amigo atencioso (sim, agora já o considerava meu amigo) disse o quanto era ruim ver tanto desrespeito naquele lugar. Menores de idade bebendo e fumando (nada contra) e ele, tinha simplesmente que esquecer sua posição de cumpridor da lei. Legal sua atitude de não fazer nada, mesmo querendo, porque prejudicaria quase todos. Um momento horrível. Uma ligação para um dos barraqueiros com a notícia de que aqui, na cidade um acidente fez uma vítima fatal. Era um amigo, um colega de muita gente que estava acampada. Muito choro, desespero, foi triste. Ninguém dormiu depois da ligação. O dia amanheceu, procurei o sol nascente, mas as nuvens o escondiam. O frio era de trincar e procurei logo meu chocolate quente. Aos poucos, todos acordavam e faziam uma grande fila para o misto frio no pão de sal. O dia passou depressa. Eu já estava me enturmando e interagindo com outros alunos. No fim do dia, depois de muita dor no corpo, muita massagem e cochilos para compensar as horas de sono perdidas, organizamos de última hora um churrasco. Cinco reais era a condição para participar e era difícil recuperar com carne. Me senti no tempo das cavernas, disputando a caça para sobreviver. O tempo era curto e ninguém ligava em comer carne crua. Começamos a nos preparar para o baile de máscaras (a expectativa foi tão grande, mas nem tava tão legal assim). Tinha terrorista, bruxa, monstro, carnavalescos e até máscaras de séculos passados. Alguns nem precisavam usar máscaras, eram a própria figura, um personagem. Cheguei a comprar uma, caso o uso fosse obrigatório. Ainda bem não precisei usá-la. O cansaço, o sono, o frio e a timidez me puxaram para a barraca e lá fiquei. Não participei da “balada” e não me arrependo disso. Essa noite sim eu consegui dormir, sem interrupções. Quando acordei, já era dia, sol já estava alto (mesmo que escondido nas nuvens) e a fila pro café era grande. O clima, quase que para todos, era de despedida. Não tínhamos hora certa pra ir embora, mas sabíamos que o fim estava próximo. Aproveitar os últimos momentos, era isso que a maioria queria. Resolvemos acabar com a carne do dia anterior e demos falta do carvão. Depois de procurar por todo o clube, uma alma caridosa (ou de consciência pesada) cedeu um saco cheio para que pudéssemos divertir. E assim o fizemos. A chuva ameaçou a cair e por sorte, as barracas já haviam sido desmontadas. Apenas reunimos os pertences pessoais em um canto e logo levamos para o ônibus. O clima de despedida tomava conta do lugar. Assim que terminamos o almoço, já procuramos cada um o seu lugar no ônibus. A volta foi bem mais tranqüila que a ida. O cansaço, a preguiça era geral. Mas como em toda viagem de escola, teve aquela farra. Minha localização no ônibus era mais no fundo, onde todo mundo queria realmente dormir. Alguns até conseguiram, outros tiraram um cochilo (meu caso) e teve um que entrou em sono profundo (sortudo). O tempo passou mais devagar, mas nem por isso a viagem foi cansativa. Enfim na minha cidade, com minha mãe já me esperando. Ah, minha casa, meu quarto, uma tomada disponível, minha cama, meu cactus, meu sapinho, Nesquick, Tuba, Internet, orkut e blog. Uau! Amo muito tudo isso! Aventura nenhuma me faria esquecer do quanto é bom o conforto de casa. No mais, gostei de tudo, adorei. A propósito, como é bom um colchão macio, né?
Há 5 anos
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